O JOGO

 

— Mas você é ateu e esse jogo é pra conversar com anjos!

Seu colega dá de ombros, com um meio sorriso.

— A gente tem que estar aberto a novas experiências, né? — responde, dando um tapinha na caixa. — E se existirem mesmo?

Ele abre a tampa com cuidado exagerado, como se estivesse revelando algum artefato antigo.

Dentro há um tabuleiro rígido de madeira, amarelado pelo tempo, impresso com as letras do alfabeto em arco, os números de 0 a 9 numa fileira abaixo e, num canto discreto, a palavra ADEUS.

Ele retira também uma peça curiosa: uma asa dourada de anjo, feita de acrílico, com uma pequena seta no centro.

— Olha só… a Asa da Revelação — diz, lendo o nome gravado na peça.

Do fundo da caixa surgem ainda um bloco de notas, um lápis, quatro velas finas e um pequeno isqueiro.

— Prestem atenção que vou ler o tutorial vapt-vupt — ele anuncia.

Você ergue uma sobrancelha.

— Vapt-vupt?

Ele abre o manual.

O manual parece ter umas trezentas páginas, no mínimo.

— É o resumão na página 10.

Ele começa a ler em voz alta, exagerando o tom solene:

“Converse com seu anjo é um jogo criado para facilitar seu contato com o CÉU.”

Ele ergue os olhos e dá uma piscadinha irônica.

— Começou bem.

Ele continua:

“Os participantes encostam a mão na ASA DA REVELAÇÃO posicionada no centro do tabuleiro ao início da sessão. Diante de uma pergunta formulada em voz alta, a energia telepática e subconsciente do ANJO flui pelos jogadores, deslizando a ASA para indicar as letras e números que formam a resposta.”

Ele vira a página.

— E agora vem a parte boa.

Ele limpa a garganta.

“Para sua segurança, atente para as seguintes regrinhas.”

Ele levanta um dedo.

— Regra número um:

Nunca converse com seu anjo num cemitério.

— Bom saber — você comenta.

Ele continua.

2 — Nunca deixe a Asa solta no tabuleiro. Sempre que terminar a sessão leve a Asa para o canto do ADEUS.

3 — Não faça perguntas com ironia.

Ele ergue os olhos novamente.

— Isso já elimina metade das perguntas que eu estava pensando.

Ele segue.

4 — Se repetidamente o ponteiro da Asa indicar o número 8, encerre o jogo imediatamente.

Você inclina a cabeça.

— Estranho.

Ele continua lendo.

5 — Nunca pergunte sobre Deus, Jesus ou sobre o futuro. Principalmente sobre sua morte.

O som da chuva batendo nas janelas parece aumentar.

— Parece fácil — você diz. — Acabaram as instruções?

Ele vira a página.

— Espera… tem mais uma.

Ele aponta para uma frase escrita em letras maiores.

6 — JAMAIS PEÇA PARA O ANJO PROVAR SUA EXISTÊNCIA.

O silêncio paira por um segundo.

Você coça o queixo.

— Ah… não sei se tô a fim de brincar disso.

Você observa o tabuleiro sobre a mesa.

— Esse jogo está parecendo mais uma tábua oui…

— Deixa de bobagem — ele interrompe.

Ele já está derretendo a base das velas com o isqueiro e fixando-as nos cantos da escrivaninha.

— Vai ser divertido.

Ele apaga a luz do quarto.

A escuridão toma conta do ambiente.

A única iluminação agora vem das quatro velas, tremulando sob o som constante da chuva na vidraça.

As sombras se movem nas paredes.

Você se senta numa cadeira diante da escrivaninha.

Ele empurra o tabuleiro para o centro.

                                                    MUITA CALMA NESSA HORA!


— Você começa.

Vocês dois encostam a ponta dos dedos na Asa de acrílico.

Por um instante nada acontece.

Você engole em seco.

— Tem algum anjo nesta sala?

O silêncio se prolonga.

Cinco segundos.

Seis.

Então a Asa raspa levemente no tabuleiro.

Um arranhão suave. Ela começa a deslizar devagar. Seu colega solta um risinho.

Com a mão livre ele anota as letras.

S…

I…

M…

— Qual seu nome, anjo? — pergunta seu colega.

A Asa se move novamente, rebocando os dedos de vocês dois junto.

P…

I…

G…

G…

Y…

— Piggy — ele lê em voz alta.

Ele pensa um pouco.

— Piggy… no céu tem advogados?

A Asa se move outra vez.

N…

A…

O…

Então ela desliza lentamente até parar sobre o número 8.

Você olha para ele.

— Você tinha lido alguma coisa sobre o número 8, não tinha?

Ele dá de ombros.

— Sei lá.

Ele faz um gesto impaciente.

— Não perde tempo. Faz outra pergunta.

Você suspira.

— Pra onde vão os agnósticos?

A Asa se move.

P…

R…

A…

B…

A…

I…

X…

O…

Ela volta novamente para o número 8.

Seu colega ri.

— Ainda dá tempo de se converter.

— Ah! — você diz, estreitando os olhos. — É você que está movendo essa coisa!

— Não fui eu — ele responde rápido. — Juro.

Ele aponta para o tabuleiro.

— Quem moveu a Asa foi o Piggy.

Você cruza os braços.

— Ah tá. Então o ateu confesso agora está dizendo que um anjo está respondendo perguntas.

Ele dá de ombros.

— Por que não?

Ele se inclina sobre o tabuleiro novamente.

— Ei, anjo… pode provar sua existência para nós?

A Asa fica imóvel.

Um segundo.

Dois.

Três.

Então ela se move.

Mas desta vez ninguém parece estar empurrando.

A peça desliza sozinha pelo tabuleiro.

Seu colega arregala os olhos.

Mesmo assim ele começa a anotar.

S…

A…

T…

A…

N…

A…

S…

Um chiado baixo... Um cheiro horrível invade o quarto. Algo como peixe estragado.

As quatro velas se apagam ao mesmo tempo.

A porta do quarto bate com força.

Você grita.

— AAAAAAHHHH!

As dobradiças rangem.

A porta se abre lentamente.

Um clarão vindo da sala invade o quarto.

É Mateus. Ele está parado na porta. Na mão ele segura uma garrafa de refrigerante verde.

Mas há algo errado.

Muito errado.

A boca dele está aberta num sorriso estranho.

Os olhos estão esbranquiçados.

Ele solta um rosnado baixo.

E então se lança sobre vocês.

           

        

O que você faz?

Você fica parado, imaginando que seus colegas estão fazendo uma brincadeira sem graça…
ou decide fugir?

CRUZAR OS BRAÇOS FUGIR

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