—
Não me culpe, a ideia foi do Mateus. Pelo menos vai sobrar mais grana da diária
— disse o colega de trabalho, largando o corpo na cama como se o colchão fosse
o primeiro conforto verdadeiro depois de horas espremido no carro. Ele passou a
mão pelo cobertor de microfibra, alisando o tecido com movimentos distraídos,
como quem tenta convencer a si mesmo de que aquele lugar era apenas estranho… e
não errado.
Você não responde imediatamente.
Dá alguns passos pelo quarto e se aproxima da porta.
O piso de madeira range baixo sob seus pés.
— Pô… mas a casa fica num ferro-velho — você diz por fim, olhando em volta.
A frase parece pequena diante da paisagem que vocês tinham visto ao chegar: carros desmontados, carcaças enferrujadas empilhadas, peças de motor abandonadas como ossos espalhados num cemitério de máquinas.
Você inclina a cabeça e espia o corredor.
No fim dele, Mateus já se aboletou numa poltrona funda que parecia ter sido resgatada do meio daquele ferro-velho. A televisão antiga e bojuda espalha uma luz azulada irregular pela sala.
Ele segura uma garrafa na mão.
O líquido reflete a luz da TV. Ou seria verde mesmo?
Ele levanta a garrafa devagar e toma um gole.
Depois fica olhando para a tela sem expressão.
Você fecha a porta devagar.
— Não sei onde eu estava com a cabeça quando concordei de ficar no mesmo lugar que esse escroto.
Seu colega dá de ombros.
— A casa é grande… — diz, esticando as pernas na cama. — E cada um tem um quarto separado.
Você cruza os braços.
— Mas você curtiu aquelas coisas que ele foi falando no carro?
Seu colega solta um pequeno suspiro.
— Claro que não.
Ele olha para a janela como se a lembrança estivesse projetada ali.
— Ele falar do porão…
A palavra fica suspensa no ar por um segundo.
— Dar detalhes daquilo…
Ele faz uma careta.
— Horrível.
Outro silêncio.
— Nojento.
O barulho distante da televisão chega abafado pelo corredor.
— Aquela parte da mangueira… — ele começa, mas para no meio da frase. — Enfim.
Ele balança a cabeça, como se estivesse expulsando a memória à força.
— Vamos deixar isso pra lá.
Ele esfrega o rosto com as duas mãos.
— A gente devia sair pra comer alguma coisa. Estou faminto.
Você olha para o corredor outra vez.
— Só vou no banheiro e...
Um relâmpago explode do lado de fora.
O clarão invade o quarto por trás das cortinas, transformando tudo em branco por um instante. Logo depois vem o trovão.
CABRUM!
As vidraças estremecem. A tempestade desaba quase imediatamente.
A chuva não começa, despenca.
As persianas batem contra a janela com violência. O vento empurra a água para dentro do quarto e gotas pesadas respingam no chão de madeira.
— Droga — você murmura.
Você corre até a janela e a fecha com esforço.
O vidro vibra sob seus dedos.
— Você trouxe guarda-chuva, certo?
Seu colega levanta os olhos.
E balança a cabeça.
— Não.
Vocês dois olham para a chuva por alguns segundos.
Ela engrossa ainda mais.
O som no telhado vira um rugido contínuo.
— Estamos presos aqui — você conclui.
Ele solta um pequeno riso resignado.
— E parece que esse temporal vai se estender por bastante tempo.
Outro trovão ribomba.
Então ele leva a mão ao estômago.
— Você ouviu meu estômago?
Ele ri.
— Porque ele acabou de pedir comida.
Ele se levanta da cama e vai até um armário encostado na parede.
A porta range quando ele abre.
— Deve ter algum guarda-chuva esquecido por aqui.
Ele começa a vasculhar o interior.
Tira caixas velhas das prateleiras e as atira no chão sem muito cuidado.
Uma delas se abre e espalha revistas antigas pelo piso.
— Ei, cuidado! — você alerta, dando um passo para trás. — Pode ter um rato aí dentro.
— Relaxa — ele responde sem olhar. — Não tem nada aqui. Nem rato, nem guarda-chuva, nem...
Ele para.
Fica imóvel por um segundo.
— Espera.
Ele puxa algo do fundo do armário.
— Ora… ora… ora.
Ele sopra a poeira da tampa.
Uma pequena nuvem cinzenta sobe no ar.
— Olha isso.
Ele vira a caixa para você ver.
As cores estão desbotadas, mas ainda dá para ler o título:
CONVERSE COM O SEU ANJO
OS ANJOS CONHECEM AS RESPOSTAS PARA O FUTURO
— Um jogo da Estrela — ele diz, com um sorriso torto.
Ele bate a caixa na lateral do armário para tirar a poeira.
— Devem ter esquecido isso aqui há séculos.
Ele olha para você com um brilho curioso nos olhos.
— Podemos jogar enquanto a chuva não passa.
No corredor, a televisão continua chiando.
Ele abre a caixa devagar. O manual cai no chão.
— Então… topa jogar?
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